Com poesia, teatro e música, Projeto Sobrecidades ocupa praças em São Paulo

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Por Gabriela Moncau

Fotos de Alexandre Okamoto

Algo de diferente no largo Paissandú, no centro de São Paulo. Muitos que passavam por ali naquela sexta-feira, 16 de outubro, paravam para ver o que é que aquelas dezenas de pessoas faziam sentadas no chão, em cadeiras, em tendas, durante toda a tarde e entrando pela noite. Violão, poesia, teatro, rap, coral. “É de alguma igreja?”, perguntou um estudante congolês, curioso.

Não, não é: foi a primeira dessa rodada de ocupações culturais, organizadas pelo Centro de Convivência É de Lei como uma forma de criar um espaço de encontro, convívio, criatividade e diálogo em diferentes territórios abertos da cidade. As atividades, que aconteceram dias 16 no Paissandú e 17 no Largo do Piraporinha na zona Sul integram o Projeto Sobrecidades – imagens em trânsito, que pretende criar espaços comuns e correspondências entre habitantes dessas duas regiões de São Paulo.

              

Um violão abriu o Sarau De Olho na Rua no centro, com Samir Barreto, que é músico e convivente do É de Lei. Em seguida, quem ocupou o centro da roda foi o Coral Cênico Cidadãos Cantantes, com as músicas Awimbauê (feita no começo do século 20 em dialeto zulu na África do Sul, canção que fala sobre um leão e que ficou popularizada com o filme da Disney do Rei Leão), “Dor elegante” (poema de Leminski), e “Pirex” (poema de Thiago de Mello), de Itamar Assumpção, além de cirandas.

“O grupo é fundamentalmente heterogêneo – independe de patologias, de uso de substâncias, etc. – e trabalha na perspectiva da potência, não da inclusão”, define Cris Lopes, idealizadora do projeto Cidadãos Cantantes, que existe desde 1992, é aberto a qualquer pessoa e se reúne todas as quartas às 10h30 na vitrine da dança da Galeria Olido. “Porque as pessoas não estão fora da sociedade para serem incluídas. Podem estar dentro de algo que não queiram… Assim, trabalhamos com a potência, com a arte como fim e não como meio. Fim de emancipação, criação, troca. Pois a convivência criativa transforma”, expõe.

“No olho da rua  / No vento ao relento / Noites escuras / Céu cinzento / Exposto ao vento / Debaixo da chuva / Queimando ao sol / Sem a sombra de poucos / Insana fome / Homens se ignoram / Se devoram / Se exploram / Se degradam a toda hora / Por um prato de alimento / Que alimento? / Se já não há mais tempo / Para escapar / Do olho da rua”. O poema “No olho da rua” recitado no sarau (pouco antes da apresentação de um cover do Michael Jackson) foi escrito por Fernando na convivência do É de Lei, há algumas semanas atrás.

Houve ainda apresentação do Recuperasom, grupo de samba do Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras drogas) e do grupo de teatro No Turno, que se encontra todas as segundas-feiras a tarde no CAPS Itapeva. Um dos pontos altos da ocupação cultural do Paissandú certamente foi a apresentação de beatbox, rap e dança de Criss Stevens, um haitiano de 19 anos que vive em São Paulo há 9 meses e que está preparando seu primeiro CD – no largo ele deu uma palhinha de duas de suas composições: “Bandido com polícia” e “Marijuana”. As próximas ocupações culturais acontecerão no mês de novembro.

               

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