Carlão: “Por isso que falo: tem que fechar os hospitais psiquiátricos”

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Depoimento colhido por Gabriela Moncau e Priscilla Cavalieri

Meu nome é Carlos Augusto de Oliveira. Vou contar minha história pra vocês, as coisas que passei… Nasci aqui em São Paulo, no Bexiga. Agora eu tenho 52 anos e minha vida foi sofrida, estive preso na cadeia, no CDP [Centro de Detenção Provisória].

Comecei a usar drogas com 12 anos. A primeira que provei foi lança-perfume. Aí quando eu tinha 18 anos eu estava muito mal e minha família me internou à força num hospital psiquiátrico. Ali foi horrível… Foi quando eu vi a realidade acontecer. Eu vi muita coisa acontecer, vi mortes. Os funcionários tratavam mal os pacientes, espancavam, davam eletrochoque…

Por isso que eu falo: tem que fechar os hospitais psiquiátricos. Já fazem 20 anos que estou nesse envolvimento com a luta antimanicomial. Pra mim foi um sofrimento passar por isso, por um hospital psiquiátrico e eu comecei a enxergar eu mesmo. O erro está ali dentro dos hospitais psiquiátricos. Fiquei internado três anos, sem sair para a rua. Eu estava agressivo lá dentro, e aí tomei sossega leão, tomei eletrochoque. Pra mim estar aqui agora… pra mim estar aqui agora é uma vitória. Uma vitória.

              

Saí do hospital e voltei pras ruas. Comecei a cheirar cocaína, a beber e de lá pra cá estou usando crack. Quando chegou 2006 eu fui preso, tirei quatro anos… Eu tava lá dentro da prisão quando recebi a notícia que meus pais tinham falecido. Nossa, foi um choque pra mim, fiquei muito triste. Aí quando eu consegui o semiaberto, num dia de saidinha eu saí e não retornei mais, foi quando eu virei foragido. Mas em 2013 eles conseguiram me pegar, foram me achar lá no CAPS Itaim Bibi… É, me acharam lá. E lá vai eu de novo pra cadeia. Totalmente fechado. Caramba, pra mim foi uma tristeza. Depois de um tempo eu ganhei o regime aberto, que eu ainda estou assinando, toda semana.

Muitos amigos foram me visitar lá na cadeia. Parceiro meu que hoje já é formado da PUC-SP, pessoal do CRP [Conselho Regional de Psicologia], muita gente importante.

Minha vida hoje já tá bem sossegada, eu estou conseguindo. Eu participo das reuniões… Teve uma quinta-feira que eu participei de uma reunião grande, a do Fórum Estadual de Redução de Danos, que aconteceu lá no CRP. E estou frequentando o Centro de Convivência É de Lei. As pessoas me convidam pra falar, sabia? No dia 18 de maio [Dia Nacional da Luta Antimanicomial] eu fui falar em cima do caminhão de som. Estou feliz.

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