Autoria: Thainá Alves Lira e Janaina Rubio Gonçalves
Revisão: Daniel Figueiredo
A hormonização é um recurso utilizado amplamente pela sociedade para regular ou alterar funções no corpo, seja na reposição hormonal durante a menopausa, no tratamento de deficiências de testosterona ou no uso diário de métodos contraceptivos. Trata-se de uma tecnologia de saúde que utiliza substâncias para promover ajustes ou alterações no organismo. No entanto, quando olhamos para a população trans, travesti e não-binária, a hormonização ganha uma dimensão que vai muito além de um simples ajuste clínico.
Leia mais no texto “Hormonização: Caminhos Possíveis para a População Trans”
Hormônios, Álcool e Outras Drogas
No contexto de populações que usam drogas, compreender as interações entre a terapia hormonal e o uso de substâncias psicoativas é fundamental para prevenir complicações. A hormonização altera o metabolismo e o funcionamento de órgãos do corpo, como o fígado e o coração. Quando outras substâncias entram nessa equação, os riscos associados aos hormônios podem ser potencializados.
- Tabaco: Esta é a interação mais relevante para quem faz uso de estrogênios, pois a nicotina e o alcatrão presentes no cigarro multiplicam o risco de trombose inerente a esse hormônio, aumentando a probabilidade de formação de coágulos, embolia pulmonar, infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC).
- Álcool: A maioria dos hormônios em formato oral e os bloqueadores de testosterona são metabolizados pelo fígado. O consumo excessivo e frequente de álcool junto à hormonização gera uma dupla sobrecarga, podendo levar a um dano ao fígado a longo prazo e interferir na eficácia da metabolização hormonal.
- Estimulantes (Cocaína, Crack, Metanfetamina, Metilfenidato, Lisdexanfetamina): A testosterona pode causar elevação da pressão e tornar o sangue mais espesso. O uso combinado com substâncias estimulantes, que aceleram os batimentos do coração e contraem os vasos sanguíneos, gera um aumento do trabalho do coração, aumentando o risco de arritmias, pressão alta e infartos.
- Depressores (Benzodiazepínicos, Ansiolíticos, Opioides): A hormonização pode envolver variações de humor e alterações no metabolismo. O risco prático é a sedação excessiva, cansaço extremo e maior depressão respiratória. O uso desregulado de substâncias depressoras pode dificultar a estabilização emocional durante os picos hormonais, além de mascarar reações adversas.
- Antidepressivos: A hormonização, especialmente nos primeiros meses ou quando feita de forma irregular, causa mudanças no corpo que afetam o humor, a energia e a libido. Como os antidepressivos também atuam nesse mesmo sentido, os efeitos podem se misturar. O principal risco é a sobreposição de mudanças de humor e disfunções na libido.
O uso dessas substâncias não deve ser utilizado pelos serviços de saúde como justificativa para negar a hormonização. A recusa do cuidado médico apenas empurra essas pessoas para o mercado informal, piorando vulnerabilidades já existentes. A função da equipe de saúde é promover cuidado e monitorar danos (através de exames que avaliam a função do fígado, colesterol e hemograma, focando especificamente no “Painel de Segurança”), ajustar as doses para um nível mais seguro e oferecer suporte psicossocial integral.
O acesso a esse cuidado deve focar em desburocratizar as filas e acolher a pessoa na sua totalidade. Isso significa respeitar suas vivências em seus territórios e contextos, além do seu histórico de uso de substâncias, compreendendo que a saúde é um direito fundamental. Exigir a abstinência como moeda de troca para a prescrição hormonal é uma violação das diretrizes internacionais de saúde trans e travesti e uma prática que afasta a população do cuidado.
Interações com os medicamentos antirretrovirais
Para pessoas que vivem com HIV, a interação entre a hormonização e a TARV exige atenção especial, mas não impede de forma alguma o cuidado afirmador de gênero. O fígado utiliza as mesmas enzimas para processar os antirretrovirais e os hormônios (principalmente os orais). Essa sobrecarga no fígado pode fazer com que os níveis de hormônio no sangue caiam ou aumentem, alterando os resultados esperados da hormonização e possíveis efeitos colaterais. A estratégia de redução de danos aqui é o diálogo aberto: usuários, infectologistas e endocrinologistas precisam estar cientes de ambos os tratamentos para, caso seja necessário, ajustar as doses. Parar a TARV para priorizar o hormônio, ou omitir o uso de um deles, é um risco à imunidade e à saúde.
Os principais tratamentos na rede pública incluem:
- Dolutegravir, Lamivudina, TAF, Entricitabina: a primeira é a medicação mais usada atualmente no SUS e a mais segura. Não possuem interação clínica significativa com estrogênios, bloqueadores ou testosterona. O uso simultâneo é seguro e não exige alteração nas doses.
- Efavirenz e Nevirapina: estas medicações aceleram o metabolismo do fígado. Na prática, elas quebram o estrogênio e a testosterona muito rápido, diminuindo seus níveis no sangue. O risco é a pessoa achar que não está tendo resultado e aumentar a dose por conta própria.
- Ritonavir, Darunavir e Atazanavir: Podem promover a diminuição de metabolização de testosterona, o que ocasiona o aumento e acúmulo com piora de efeitos adversos (trombose, problemas cardíacos, etc). Com relação ao estradiol podem ocasionar a diminuição da concentração e dos efeitos esperados, o que pode ocasionar frustração e aumento inadvertido da dosagem.
- Tenofovir: muito usado no tratamento e na PrEP e esquema inicial de tratamento de HIV/AIDS. Não altera os níveis hormonais, mas pode causar perda de massa óssea. Como os bloqueadores hormonais também podem enfraquecer os ossos, é fundamental monitorar os níveis de Cálcio, Vitamina D e densidade óssea.
| Classe do Medicamento (Mecanismo de Ação) | Medicamentos Disponíveis no SUS (1ª e 2ª Linha) |
| Inibidores da Integrase (INI) | Dolutegravir (DTG) (Padrão de 1ª linha) Em breve: Bictegravir |
| Inibidores da Transcriptase Reversa Análogos de Nucleosídeos/Nucleotídeos (ITRN / ITRNt) | Tenofovir (TDF) Tenofovir alafenamida (TAF) Lamivudina (3TC) Zidovudina (AZT) Abacavir (ABC) |
| Inibidores da Transcriptase Reversa Não Análogos de Nucleosídeos (ITRNN) | Efavirenz (EFV) Nevirapina (NVP) |
| Inibidores da Protease (IP) e Potencializadores | Darunavir (DRV) Atazanavir (ATV) (Administrados com o potencializador Ritonavir [RTV]) |
Mercado Informal e Automedicação
Quando o sistema de saúde falha em acolher, burocratiza o acesso ou exige a abstinência para o direito à saúde, a busca pelo mercado paralelo se torna o único caminho. A compra informal de hormônios e a automedicação carregam riscos frequentemente ignorados pela urgência da afirmação de gênero.
Por falta de acesso ao estradiol bioidêntico, pessoas que buscam a hormonização geralmente recorrem a anticoncepcionais (como o etinilestradiol). Por serem baratas e vendidas sem receita, são consumidas em altas doses. E esse é o maior risco: como essas pílulas contêm microdoses voltadas apenas para evitar a gravidez, elas acabam sendo consumidas em altas quantidades diárias para induzir mudanças físicas. Segundo a Sociedade de Endocrinologia, essas altas doses de hormônios sintéticos sobrecarregam o fígado e aumentam a coagulação do sangue, tornando-os estimuladores de trombose e representando um risco letal quando usados para essa transição.
Existe uma crença de que mais hormônio gera resultados mais rápidos. No entanto, o excesso de testosterona injetada, por exemplo, é convertido de volta em estrogênio (um processo chamado aromatização), causando o efeito exatamente inverso ao desejado. Uma prática de redução de danos fundamental é: menos é mais. Cada hormônio possui um tempo específico de duração no corpo, portanto injetar ou tomar mais comprimidos antes da dose anterior ser processada não acelera as mudanças físicas, apenas satura os receptores e intoxica o fígado.
A compra de ampolas nesse mercado alternativo não oferece garantia de procedência; às vezes, óleos desconhecidos são injetados no corpo. Além disso, o compartilhamento de seringas e agulhas e/ou o reuso destas é um vetor direto para a transmissão de HIV, Hepatite B e C, causando também abscessos, infecções e necroses.
A hormonização sem acompanhamento, somada ao uso frequente de substâncias e à transfobia diária, gera um desgaste psicológico enorme. Outro risco muitas vezes desconsiderado da automedicação é a suspensão brusca do uso. Se a pessoa precisar parar o processo (por falta de dinheiro, interrupção no SUS ou problemas de saúde), a descontinuação repentina causa uma queda abrupta hormonal que pode desencadear graves alterações de humor e fadiga extrema. A melhor estratégia de proteção para isso é o planejamento do desmame, reduzindo a dose de forma gradual. As estratégias de redução de danos, nesse sentido, não são apenas sobre o corpo, mas sobre garantir direitos como saúde mental e qualidade de vida.
| Substância do Mercado Informal | Foco de Uso | Riscos Biológicos e Consequências |
| Estrogênios Sintéticos (ex: pílulas de Etinilestradiol) | Mudanças estruturais rápidas (como desenvolvimento de mamas e redistribuição de gordura) a baixo custo. | Alto risco de trombose e embolia: O fígado é sobrecarregado pelas altas doses, tornando o sangue mais propenso a coagular e formar trombos. |
| Silicone Industrial Líquido (SLI) | Modificação de contorno corporal (glúteos, quadris, coxas, peitoral). | Necrose, infecção e morte: Material não estéril que causa inflamação crônica, apodrecimento do tecido e risco de morte se entrar na corrente sanguínea ou por infecções graves. |
| Testosterona Veterinária | Ganho de massa muscular, crescimento de pelos e engrossamento da voz a baixo custo. | Contaminação e desregulação: Sem controle sanitário humano. Causa abscessos graves, infecções e desequilíbrio metabólico devido a dosagens imprevisíveis. |
| Anabolizantes / Blends (ex: Durateston) | Aceleração extrema no ganho de massa muscular e alterações estruturais. | Hepatotoxicidade e supressão: O excesso intoxica o fígado, deixa o sangue mais espesso e pode ser convertido em estrogênio pelo corpo, gerando efeito reverso como aumento de mamas. |
Redução de Danos Aplicada à Hormonização
A RD reconhece a autonomia dos sujeitos e atua na realidade prática, ou seja, se a pessoa está se automedicando ou usando substâncias enquanto faz terapia hormonal, o foco é minimizar os riscos. Nesse aspecto, as principais estratégias incluem:
- Se for injetar, faça com segurança: Garantir a distribuição e a orientação sobre o uso de seringas e agulhas descartáveis. O compartilhamento de materiais deve ser desencorajado para prevenir infecções por HIV e hepatites B e C. É essencial orientar sobre a limpeza correta do local da aplicação e a importância de alternar os locais de injeção para evitar fibroses, inflamações e abscessos. A prática segura inclui o rodízio de músculos (glúteo, vasto lateral da coxa, deltoide) e o uso da “técnica em Z” (puxar levemente a pele para o lado antes de inserir a agulha e soltá-la apenas após retirar a seringa, selando o músculo para evitar que o líquido e o sangue voltem para fora). Desaconselhar a aplicação intramuscular nas regiões com próteses ou silicone industrial.
- Substituição de substâncias: Informar sobre a diferença entre os tipos de hormônios. Orientar, por exemplo, a troca de estrogênios sintéticos (como as pílulas anticoncepcionais) por estrogênios bioidênticos (como o valerato de estradiol), que possuem riscos menores.
- Acesso à testagem e profilaxia: Promover a testagem regular de HIV/aids, hepatites B e C e sífilis e facilitar o acesso rápido a métodos de prevenção combinada, como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) e vacinação para hepatites A e B e HPV.
- Acolhimento integral na Saúde Mental: garantir encaminhamento e acesso à acolhimento e acompanhamento de saúde mental na rede de atenção psicossocial (UBS, CAPS e outros serviços de saúde). A experienciação de transfobia pode ocasionar sofrimento mental importante.
- Cuidado sem julgamento: Profissionais de saúde e pessoas redutoras de danos precisam estabelecer um diálogo aberto, horizontal e sem julgamentos e punições. Ter medo de contar a esse profissional sobre o uso de cocaína, álcool ou hormônios adquiridos no mercado informal, por receio de perder o acesso ao tratamento, pode levar a sérias complicações. O vínculo de confiança e a honestidade salvam vidas.
- Apoio entre pares: Fortalecer redes de apoio compostas por travestis, mulheres trans, homens trans e pessoas não-binárias. A troca de informações baseadas em evidências entre pessoas com vivências semelhantes cria uma rede de apoio e proteção fundamental frente a comportamentos arriscados.
A busca pela afirmação de gênero e pela própria identidade é um movimento de vida. Com informação acessível, cuidado multiprofissional sem estigmas e a aplicação da Redução de Danos como metodologia, é possível garantir que esse processo aconteça com segurança, dignidade e respeito.
Bibliografia Recomendada
Bueno, J. (2024/2025). Investigadora, psicóloga e redutora de danos. Autora de trabalhos focados no protagonismo travesti na saúde pública, na ética do cuidado comunitário (com resgate histórico de figuras como Brenda Lee) e na interseccionalidade entre redução de danos, saúde mental e envelhecimento da população trans.
Cavalcanti, C. Investigadora das dinâmicas de vulnerabilidade, trabalho sexual (“a pista”) e violência institucional, cruzando raça, classe e identidade de género.
Coleman, E. et al. (2022). Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. World Professional Association for Transgender Health (WPATH). International Journal of Transgender Health.
Hembree, W. C. et al. (2017). Endocrine Treatment of Gender-Dysphoric/Gender-Incongruent Persons: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.
Lionço, T. (2009). Atenção integral à saúde e diversidade sexual no Processo Transexualizador do SUS. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 19(1), 43-63.
Ministério da Saúde (Brasil). (2013). Portaria nº 2.803, de 19 de novembro de 2013. Redefine e amplia o Processo Transexualizador no SUS. Brasília: MS.
Ministério da Saúde (Brasil). (2023). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. Secretaria de Vigilância em Saúde. Brasília: Ministério da Saúde.
Ministério da Saúde (Brasil). Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Brasília: Ministério da Saúde.
Secretaria Municipal da Saúde (São Paulo). (2024). Protocolo de Cuidados à Saúde de Pessoas Trans e Travestis no Município de São Paulo (3ª ed. rev.). Secretaria Municipal da Saúde. São Paulo: SMS.