Autoria: Thainá Alves Lira e Janaina Rubio Gonçalves
Revisão: Daniel Figueiredo
A hormonização é um recurso utilizado amplamente pela sociedade para regular ou alterar funções no corpo, seja na reposição hormonal durante a menopausa, no tratamento de deficiências de testosterona ou no uso diário de métodos contraceptivos. Trata-se de uma tecnologia de saúde que utiliza substâncias para promover ajustes ou alterações no organismo. No entanto, quando olhamos para a população trans, travesti e não-binária, a hormonização ganha uma dimensão que vai muito além de um simples ajuste clínico.
Apesar de ser um pilar fundamental para a qualidade de vida, é muito comum que a saúde pública olhe para travestis, pessoas trans e não-binárias que usam ou não drogas apenas como corpos marginalizados que “precisam ser salvos”. A pesquisadora Julia Bueno propõe o resgate da memória de figuras como Brenda Lee (ativista histórica no acolhimento de pessoas com HIV/aids), mostrando que a Redução de Danos, antes mesmo de ser uma política institucionalizada pelo Estado, já era uma estratégia de sobrevivência comunitária feita por e para travestis nas ruas. Podemos destacar o que Bueno chama de “ética travesti” ou “epistemologia trans”: o cuidado feito na base do afeto e da vivência compartilhada nas esquinas, provando que a própria comunidade é a maior detentora das tecnologias de cuidado e sobrevivência.
No Brasil, o acesso ao cuidado afirmador de gênero, o que inclui a hormonização, e ao acompanhamento multiprofissional é um direito assegurado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) através do Processo Transexualizador (Ministério da Saúde, 2013). Contudo, a efetivação desse direito esbarra, com frequência, em um sistema burocrático e historicamente patologizante. É urgente superar a visão que condiciona o acesso à saúde a diagnósticos restritivos, garantindo uma atenção integral que acolha as pessoas em sua totalidade, especialmente aquelas que cruzam a vulnerabilidade social e o uso de substâncias psicoativas.
Do ponto de vista fisiológico, a hormonização envolve alterações endócrinas que demandam acompanhamento clínico adequado para minimizar riscos como sobrecargas no fígado e tromboses. No entanto, quando barreiras morais e o estigma institucional afastam essa população dos ambulatórios, o mercado informal e a rua tornam-se as principais vias de acesso, empurrando milhares de pessoas para os eventuais danos da automedicação desassistida. É por isso que as diretrizes globais mais recentes de saúde trans e travestis são categóricas quando defendem um cuidado centrado no consentimento informado e na autonomia da pessoa, eliminando a “catraca moral” que exige a abstinência de substâncias como condição para o acesso ao cuidado afirmador de gênero.
Nesse cruzamento de vulnerabilidades, a Redução de Danos é compreendida como uma ética e política de cuidado coletivo que nos convoca a atuar na realidade prática dos sujeitos, oferecendo estratégias de cuidado que substituam o julgamento pelo vínculo de confiança. Afinal, a busca pela afirmação da própria identidade não deve, em hipótese alguma, custar a saúde e a vida de alguém.
Os Hormônios na Saúde Pública
O Processo Transexualizador do SUS (Portaria nº 2.803/2013) garante o acompanhamento ambulatorial e o acesso à hormonização. O objetivo da hormonização é reduzir o desconforto com as características sexuais e induzir o desenvolvimento de características físicas alinhadas à identidade ou expressão de gênero da pessoa.
É preciso ressaltar que as mudanças são graduais. Segundo as diretrizes da Endocrine Society (Hembree et al., 2017), o tempo e a intensidade das transformações variam de acordo com a genética, a idade e a resposta individual de cada organismo, não havendo uma receita única. Os medicamentos oferecidos na rede pública se dividem com base nos hormônios administrados:
1. Hormonização à base de Estrogênio e Bloqueadores Androgênicos
Esta abordagem terapêutica geralmente combina a introdução de estrogênio com o uso de medicamentos que inibem a ação ou a produção natural de testosterona.
- Estrogênios: O principal hormônio utilizado é o estradiol (frequentemente na forma de valerato de estradiol). Ele pode ser administrado por via oral (comprimidos), transdérmica (gel ou adesivos) ou injetável. Os formatos em gel e adesivo são considerados mais seguros por não passarem pela primeira metabolização no fígado, reduzindo a toxicidade em comparação aos comprimidos orais.
Efeitos esperados: Ao longo dos meses, ocorre o crescimento das mamas, redistribuição da gordura corporal (mais acúmulo nos quadris e coxas), diminuição da massa e força muscular, afinamento da pele, redução do crescimento de pelos corporais e diminuição da libido e das ereções espontâneas.
Efeitos adversos e riscos: O principal risco clínico, especialmente com o uso prolongado de estrogênios orais ou sintéticos, é o aumento da probabilidade de eventos tromboembólicos (trombose venosa profunda, embolia pulmonar e AVC). Além disso, pode haver sobrecarga no fígado.
- Bloqueadores Hormonais (Antiandrogênios): Medicamentos como a espironolactona e o acetato de ciproterona são usados para bloquear a produção e a ação da testosterona no corpo, permitindo que o estrogênio atue com eficácia em doses menores e mais seguras.
Efeitos esperados: Redução do crescimento e espessura de pelos corporais e faciais, interrupção da queda de cabelo, pele menos oleosa e diminuição de ereções espontâneas.
Efeitos adversos e riscos: Originalmente, a espironolactona é um diurético e um medicamento para pressão alta. Por isso, seus efeitos adversos incluem aumento da frequência urinária, risco de desidratação e queda da pressão. O risco mais grave é a elevação dos níveis de potássio no sangue, que pode causar arritmias graves no coração, o que exige exames de sangue regulares. A ciproterona, por sua vez, tem um perfil de toxicidade maior, como danos ao fígado, aumento dos níveis de prolactina, fadiga extrema ou episódios depressivos, e, em casos de uso prolongado em altas doses, um risco aumentado de desenvolver meningioma (um tipo de tumor benigno nas membranas do cérebro).
2. Hormonização à base de Testosterona
Para induzir o crescimento de pelos e o ganho de massa muscular, o tratamento é focado na introdução de testosterona. No caso de pessoas adultas, os bloqueadores de estrogênio geralmente não são necessários e, por isso, não são o padrão do tratamento no SUS.
- Testosterona: A administração ocorre predominantemente por via injetável (como o cipionato, enantato ou undecilato de testosterona), com aplicações que variam de quinzenais a trimestrais, dependendo do éster do hormônio. Também existe a opção em gel transdérmico, de uso diário.
Como atua no corpo:
Efeitos esperados: As mudanças incluem o engrossamento irreversível da voz, crescimento de barba e pelos corporais, aumento da massa muscular, aumento do clitóris, redistribuição da gordura para um padrão mais abdominal e a interrupção da menstruação, que costuma ocorrer nos primeiros meses.
Efeitos adversos e riscos: Um dos riscos mais comuns é o aumento excessivo de células vermelhas do sangue, deixando mais espesso e elevando o risco de problemas cardiovasculares e trombose. Além do aumento do colesterol, sobrecarga do fígado, aumento da pressão arterial e acne. Secura e diminuição da lubrificação vaginal, em uso prolongado pode ocasionar em atrofia vaginal.
Compreender como esses hormônios agem e os riscos envolvidos é o primeiro passo para garantir um processo mais seguro. É justamente a necessidade de monitorar esses efeitos adversos que pode tornar a automedicação desassistida arriscada, especialmente quando cruzada com o uso de substâncias psicoativas.
| Classe / Medicamento | Apresentação (Via de Uso) | Disponibilidade no SUS |
| Cipionato de Testosterona | Injetável (Intramuscular) | Comum. É a forma mais acessível na rede pública. Geralmente retirada nos Ambulatórios Trans ou Farmácias Especializadas do município. |
| Undecilato de Testosterona | Injetável (Intramuscular) | Variável. Disponível apenas em alguns estados e municípios, dependendo de licitação local. Permite um intervalo maior entre as injeções. |
| Testosterona em Gel | Transdérmico (Uso na pele) | Restrita. Não é padronizado nacionalmente na farmácia básica. Geralmente reservado para casos com contraindicação absoluta às injeções, exigindo solicitação especial. |
| Valerato de Estradiol | Oral (Comprimidos) | Comum. É a principal forma de estrogênio distribuída na rede pública para hormonização. |
| Estradiol em Gel ou Adesivo | Transdérmico (Uso na pele) | Restrita. É a opção mais segura para o fígado, mas raramente está em postos de saúde. Costuma ser disponibilizada em Centros de Referência ou Farmácias de Alto Custo. |
| Espironolactona | Oral (Comprimidos) | Comum. Encontrada facilmente na farmácia comum das Unidades Básicas de Saúde (UBS), pois também faz parte da lista de medicamentos para pressão alta. |
| Acetato de Ciproterona | Oral (Comprimidos) | Restrita. Geralmente a sua retirada é feita diretamente nos Ambulatórios Trans ou via processo nas Farmácias de Alto Custo. |
Guia Prático: como acessar a hormonização no SUS
O acesso ao Processo Transexualizador no SUS é um direito, mas o caminho exige passar por algumas etapas do sistema público.
- Porta de Entrada
O primeiro passo é ir à Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima da sua residência (o famoso postinho do seu bairro). O que levar: documento de identificação com foto, CPF, cartão do SUS e comprovante de residência. Logo na recepção, você tem o direito garantido de ter o seu Nome Social impresso no Cartão do SUS e de ser chamada por ele em todas as etapas do atendimento, independentemente de ter retificado os documentos no cartório (Decreto Federal nº 8.727/2016; Portaria do Ministério da Saúde nº 1.820/2009; Portaria nº 2.803/2013)
- Acolhimento e Encaminhamento
Na UBS, você passará por uma consulta com a equipe de enfermagem ou com um profissional médico de família/clínico geral. Seja direta. Informe que deseja iniciar (ou regularizar, caso já faça uso por conta própria) a hormonização e solicite o encaminhamento para o serviço especializado em cuidado afirmador de gênero. Se você faz uso de substâncias, não esconda. O uso de álcool ou outras drogas não impede o encaminhamento. A equipe precisa saber para lhe orientar adequadamente.
- Atendimento Especializado (Ambulatório Trans)
Com o encaminhamento da UBS em mãos, você entrará na fila de regulação do seu município. Quando for chamada, será direcionada para um Ambulatório Especializado. Em São Paulo, por exemplo, a rede conta com os Ambulatórios Integrais para Pessoas Trans e Travestis (AMTs) e centros de referência como o CRT Santa Cruz, sob tutela do estado. O município de São Paulo também conta com a Rede Sampa Trans (UBS que realizam cuidado afirmador de gênero) e o Centro de Referência de Saúde Integral para a População de Travestis e Transexuais – Janaína Lima. Além de aparelhos da assistência social como o programa Transcidadania e o Centro de Referência da Diversidade – Brunna Valin. Nesses locais, o atendimento é multiprofissional, envolvendo psicólogos, assistentes sociais e endocrinologistas. O profissional médico solicitará os exames de sangue (para checar seu fígado, colesterol e sangue) e definirá a medicação e a dosagem exata para o seu corpo, além de monitorar interações com outros tratamentos (como a TARV, se for o caso).
- Retirada de Medicamentos
Após receber a prescrição médica oficial do ambulatório, a retirada dos hormônios pode variar dependendo do que foi receitado. Alguns medicamentos, como a espironolactona, podem ser retirados na própria farmácia da UBS do seu bairro. Hormônios específicos (como o valerato de estradiol, cipionato de testosterona ou versões em gel) costumam ser dispensados na própria farmácia do Ambulatório Especializado ou nas Farmácias de Alto Custo (Componente Especializado), por meio de um processo administrativo simples que a equipe de serviço social do ambulatório ajudará a preencher.
3 direitos que você precisa conhecer:
- Nenhum profissional de saúde do SUS pode exigir que você passe por terapias de conversão ou tentar dissuadi-la da sua identidade.
- O acesso à hormonização não pode ser negado sob a justificativa de que você faz uso de qualquer substância. O tratamento deve ser adaptado à sua realidade.
- Caso sofra transfobia, recusa de atendimento ou desrespeito ao nome social em qualquer unidade do SUS, você pode e deve registrar uma denúncia na Ouvidoria do SUS (Disque 136).
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Bibliografia Recomendada
Bueno, J. (2024/2025). Investigadora, psicóloga e redutora de danos. Autora de trabalhos focados no protagonismo travesti na saúde pública, na ética do cuidado comunitário (com resgate histórico de figuras como Brenda Lee) e na interseccionalidade entre redução de danos, saúde mental e envelhecimento da população trans.
Cavalcanti, C. Investigadora das dinâmicas de vulnerabilidade, trabalho sexual (“a pista”) e violência institucional, cruzando raça, classe e identidade de género.
Coleman, E. et al. (2022). Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. World Professional Association for Transgender Health (WPATH). International Journal of Transgender Health.
Hembree, W. C. et al. (2017). Endocrine Treatment of Gender-Dysphoric/Gender-Incongruent Persons: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.
Lionço, T. (2009). Atenção integral à saúde e diversidade sexual no Processo Transexualizador do SUS. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 19(1), 43-63.
Ministério da Saúde (Brasil). (2013). Portaria nº 2.803, de 19 de novembro de 2013. Redefine e amplia o Processo Transexualizador no SUS. Brasília: MS.
Ministério da Saúde (Brasil). (2023). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. Secretaria de Vigilância em Saúde. Brasília: Ministério da Saúde.
Ministério da Saúde (Brasil). Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Brasília: Ministério da Saúde.
Secretaria Municipal da Saúde (São Paulo). (2024). Protocolo de Cuidados à Saúde de Pessoas Trans e Travestis no Município de São Paulo (3ª ed. rev.). Secretaria Municipal da Saúde. São Paulo: SMS.