É de Lei recomenda: Isolamento social, uso de drogas e redução de danos

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É de Lei Recomenda: Isolamento social, uso de drogas e redução de danos

por Maria Clara Gaiotto e Matheus Ramos

Não é a primeira vez que vemos a sociedade em estado de pandemia ou em isolamento social. Esses métodos de prevenção tiveram seus primeiros registros na história com o episódio da peste bubônica no século XIV. A quarentena é um ato social preventivo, para os indivíduos mesmo em bom estado de saúde.

No início do século XX e acompanhada da Primeira Guerra Mundial a gripe espanhola chega ao Brasil a bordo do navio Demerara. Na época autoridades brasileiras desdenharam os acontecimentos na Europa pois acreditavam que, por conta do oceano, o vírus não poderia chegar aqui. Em apenas duas semanas surgiram casos no Nordeste, estado de São Paulo e Rio de Janeiro e, neste último, era comum ver corpos nas ruas que lá ficavam até serem recolhidos pelas carroças da saúde pública.

Na época, jornais ficaram repletos de anúncios com falsas receitas milagrosas e mentiras relacionadas a epidemia. Farmácias inflacionaram tanto os preços que foi necessária uma intervenção do Estado. Uma das receitas terapêuticas que se popularizou era composta por cachaça mel e limão, que mais tarde virou a famosa caipirinha. Todos esses processos culminaram na criação das primeiras políticas públicas de isolamento social e de instituições que fizeram o contingenciamento da doença e produziram vacinas.

O momento atual traz uma nova dinâmica para o funcionamento da sociedade e dos indivíduos. O isolamento social causa grandes impactos em nossa saúde mental, física e nas relações sociais. É importante lembrar também que, principalmente no contexto brasileiro, não estamos “no mesmo barco”. O momento pode ser o mesmo, mas as consequências se refletem de maneiras bem diferentes.

Nesse espectro notamos uma crescente nos relatos de crises de ansiedade e episódios depressivos por conta das incertezas relacionadas ao vírus e principalmente pelo caos político. Outros motivos que também são geradores do sofrimento mental neste período estão relacionados à influência das mídias e redes sociais que estimulam produção intelectual, profissional e prática de exercícios. Essa perspectiva proativa que nos frustra, visa manter uma “normalidade” para que a sociedade siga produzindo economicamente.

Vale lembrar que, contraditoriamente, a maior parte da população brasileira segue sem a possibilidade de estar em isolamento social, trabalhando nas ruas para possibilitar nossa permanência em casa. A linha de frente do trabalho, como enfermagem e cuidados, é composta em sua maioria por mulheres negras, são essas mesmas as que mais buscam o serviço público de saúde. É essa mesma população que segue sendo atacada e exterminada, ora pelo contágio da COVID19, ora pela polícia militar:

“As mortes decorrentes de operações policiais no Estado do Rio de Janeiro aumentaram quase 60% desde o início do período de isolamento social por causa do Covid-19, o novo coronavírus. É o que revela uma análise feita pela Rede de Observatório da Violência, grupo formado por especialistas em políticas públicas. “(Alma Preta).

O Estado que continua matando determinada parcela da população deveria ser responsabilizado pelo cuidado e pela saúde, mantendo também os centros de convivência e assistência, como o CAPS, para que sigam atendendo a população de maneira segura e efetiva. Um estudo realizado pelo Observatório Covid-19 e pela Prefeitura de São Paulo mostra que, até 17 de abril, “população negra na capital têm 85% mais chance de morrer pelo vírus do que qualquer outro grupo social.” De 11 a 26 de abril, as mortes confirmadas por covid-19 pelo Governo Federal em relação a população negra passou de 180 para 930.

A população em situação de rua na cidade de São Paulo, correspondia a cerca de 24.334 mil em 2019, 69,3% dessas são pessoas pretas e pardas. Lembrando que o isolamento social se faz impossível para elxs, além de não terem acesso a água, kits de higiene pessoal ou alimentação regular, muitos delxs também são usuários de drogas o que dificulta ainda mais sua entrada nos serviços de saúde. Esse conjunto de fatores aumentam as debilitações causadas pelo vírus.

A população indígena no Brasil também morre por coronavírus a um ritmo alarmante, a taxa de mortalidade nessas comunidades é o dobro se comparada com o resto do país. Dados do jornal “La Vanguardia” demonstram que 7,8 milhões de brasileiros vivem a mais ou menos 4 horas de distância de um local com estrutura adequada para tratar casos graves.

Isso possibilita ilustrar a grande desigualdade racial existente no Brasil e a vulnerabilidade em que essas pessoas são colocadas e mantidas, enquanto a taxa de contágio e de mortalidade das pessoas brancas segue baixando, da população preta e indígena continua subindo. Isso só demonstra, mais uma vez, a urgência de nós brancos, principalmente, pensarmos sempre nos âmbitos de raça, classe e gênero enquanto conjunto.

Algumas práticas que envolvem a Redução de Danos poderiam auxiliar a menor propagação do vírus nestas populações. O projeto “Housing First” ou “Moradia Primeiro”, por exemplo, foi desenvolvido como um programa terapêutico residencial para reduzir os riscos dxs usuárixs de drogas que estavam em situação de rua. As políticas de isolamento e proteção social, como cita Ethel Maciel, são necessárias porque muitas dessas pessoas também trabalham na informalidade e precisam de apoio do governo, esse isolamento pode ser feito através do aluguel de hotéis, criação de casas de apoio ou quarentena, etc.

Dentro desse cenário, foi possível notar que, em alguns grupos, houve um aumento do uso de algumas drogas lícitas ou ilícitas. Notamos também mais pessoas buscando serviços de atendimento psicológicos. É importante pensar sobre seu uso e perceber seu corpo e mente nesse processo.

  • Segundo pesquisa realizada pela Fiocruz, com dados coletados entre 24/04 e 08/05, 18% dos entrevistados relataram aumento do consumo de bebidas alcoólicas durante a pandemia. O maior aumento (26%) ocorreu entre pessoas de 30 a 39 anos de idade. O aumento também foi associado a uma maior frequência de se sentir triste ou deprimido. Se for usar, procure se alimentar antes e intercalar seu uso com água;
  • Lave bem as mãos ao manipular qualquer tipo de substância. Não compartilhe nenhum tipo de objeto pessoal ou insumos (zip lock, baseados, cigarros, garrafas de água, etc);
  • Cuidado com café e estimulantes. Eles podem intensificar crises de ansiedades;
  • Cuidado com o uso da maconha para relaxamento. Sua reação pode ser contrária;
  • Se for utilizar algum tipo de substância, procure avisar alguém que mora com você ou que seja de confiança para auxiliar se preciso for.
  • Lembre-se sempre que os efeitos da substância são múltiplos e diferentes para cada pessoa. Avalie sempre seu contexto, corpo e mente e, se possível, teste a substância antes de usá-la.
  • Se puder, fique em casa!

Referências:
https://apublica.org/2020/05/em-duas-semanas-numero-de-negros-mortos-por-coronavirus-e-cincovezes-maior-no-brasil/ https://www.brasildefato.com.br/2020/05/13/artigo-o-que-a-atual-pandemia-revela-sobre-o-13-demaio-de-1888 https://www.lavanguardia.com/internacional/20200524/481371672137/brasil-pueblos-indigenas-ritmoalarmante-de-muertos-jair-bolsonaro-manaos-mortalidadcoronavirus.html?fbclid=IwAR3pHcCp8VfDXjOunuTHyNwUrPHeiSaM4497F-CeC4zxYuOpY7Sot4vhttM https://almapreta.com/editorias/realidade/policia-do-rio-de-janeiro-mata-quase-60-a-mais-durante-apandemia?fbclid=IwAR2klEGsAfb42RxjcUURQM4C3rdzOoq7LY1sPd3tq7OLlVF4OKpfMplO4C0
https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2020/06/03/testagem-aponta-que-populacao-negrae-a-mais-atingida-pela-covid-19-no-es.ghtml

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